Armas fantasmas e os desafios do seu controle
- janeiro 24, 2026
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Por Luiz Eduardo Dias Independente do país que esteja em foco, a circulação ilegal de armas de fogo constitui um dos principais fatores de agravamento da violência letal.
Por Luiz Eduardo Dias
Independente do país que esteja em foco, a circulação ilegal de armas de fogo constitui um dos principais fatores de agravamento da violência letal. No Brasil, dados compilados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) e divulgados pelo Jornal Valor indicam que, entre janeiro e novembro de 2025, 97.208 armas foram apreendidas no país, o que equivale a uma média de 291 armas por dia. Esses números revelam não apenas a dimensão do mercado ilegal, mas também a capacidade adaptativa das redes criminosas frente às políticas de controle e repressão.
Nesse contexto, um fenômeno recente tem despertado preocupação entre especialistas em segurança pública: o aumento das chamadas armas fantasmas (ghost guns). Segundo depoimento de Roberto Uchôa, membro do Conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, essas armas vêm se tornando cada vez mais frequentes nas apreensões policiais. Trata-se de um desafio qualitativamente novo, que tensiona os marcos legais tradicionais e exige respostas regulatórias, tecnológicas e institucionais inovadoras.
Este artigo analisa o fenômeno das armas fantasmas, discutindo sua definição, expansão, impactos na segurança pública, modelos de controle adotados e a evolução de mecanismos de rastreamento e de estudos balísticos a fim de atenderem os sistemas judiciários.
Armas fantasmas são, em linhas gerais, armas de fogo sem numeração de série, montadas total ou parcialmente fora dos circuitos industriais e comerciais legalmente regulados. Elas podem ser fabricadas a partir de kits de montagem, peças avulsas ou componentes produzidos por impressoras 3D, o que dificulta sua rastreabilidade e fiscalização.

Diferentemente das armas convencionais, que passam por controle estatal desde a fabricação até a venda ao consumidor final, as armas fantasmas são muito difíceis de serem controladas. Em muitos casos, apenas algumas partes essenciais — como o ferrolho ou o cano — são adquiridas ilegalmente ou contrabandeadas, enquanto o restante é produzido localmente, quer sejam por impressoras 3D ou manualmente. Isso permite que indivíduos sem licença ou histórico criminal formal tenham acesso a armamento funcional e letal.

Atualmente existem na internet uma grande variabilidade de projetos de armas fantasmas, desde pistolas rudimentares até aquelas que copiam com grande fidelidade pistolas de marcas renomadas. Além destes, os projetos avançam também no âmbito de fuzis que, da mesma forma, partem de projetos simples até aos mais sofisticados.

No Brasil, o fenômeno das armas fantasmas deve ser compreendido dentro de um contexto mais amplo de um mercado ilegal de armas que é altamente estruturado, alimentado por contrabando internacional e por produção clandestina doméstica.
Segundo especialistas, ocorrem três fatores principais que explicam a expansão desse tipo de armamento no país:
No Brasil, as estatísticas oficiais sobre esse tipo de armamento são fragmentadas. Entretanto, entre 2024 e 2025, autoridades brasileiras registraram ao menos sete apreensões de fuzis, pistolas e componentes produzidos com o auxílio de impressoras 3D em operações policiais em diferentes estados — incluindo Rio Grande do Sul, Pará, São Paulo e Goiás — segundo reportagens jornalísticas.
Uma notícia publicada em 2017 já apontava que no Rio de Janeiro, cerca de 9 % dos rifles apreendidos foram montados a partir de partes sem identificação.
Embora ainda representem uma parcela menor em relação ao total de armas ilegais apreendidas, as armas fantasmas têm crescido de forma constante, sobretudo em grandes centros urbanos. Sua presença em investigações criminais preocupa as autoridades, pois essas armas dificultam a identificação de rotas, fornecedores e usuários.
Mais recentemente, em agosto de 2025, uma operação policial conjunta entre Polícia Federal (PF) e Polícia Militar de São Paulo desarticulou uma fábrica clandestina de armas de fogo no interior paulista, em Santa Bárbara d’Oeste, que funcionava sob uma fachada empresarial legítima. Os policiais descobriram que o local era utilizado para produzir ilegalmente armamento pesado — especialmente fuzis modelo AR-15.
Na operação, foram apreendidos aproximadamente 40 fuzis em fase final de montagem. Essa ação é significativa porque mostra:
De acordo com um artigo publicado no ano passado, os EUA registraram, no ano de 2023, 36% do total de prisões globais relacionadas a armas de fogo impressas em 3D em 2023. Mas o Canadá vem logo atrás, com 34%. O Reino Unido teve 10% e a Austrália, 8%.
Entre 2017 e 2021, o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos EUA (ATF) estimou que as armas fantasmas produzidas aumentaram mais de 1.000% nesse período. Nesse intervalo, mais de 45 mil armas desse tipo foram recuperadas em cenas de crimes, incluindo 692 associadas a homicídios ou tentativas de homicídio. Em 2022, foram registradas mais de 25 mil apreensões de armas fantasmas nos EUA.
Ainda conforme o mesmo artigo, entre 2017 e 2021 as forças policiais nos Estados Unidos e em outras partes do mundo viram um crescimento acentuado na recuperação desses armamentos. Dados separados apontam que entre 2017 e 2021 foram apreendidas cerca de 38.000 armas fantasmas por agências norte-americanas, com um salto de apreensões de 8.504 em 2020 para 19.273 em 2021. Em termos de prisões ligadas a armas impressas em 3D, 108 detenções foram registradas no mundo até metade de 2023, sendo que os Estados Unidos responderam por 36 % desses casos, seguidos por Canadá, Reino Unido e Austrália.
Esses números mostram que, apesar de ainda representarem uma fração do total de armas ilegais, as armas fantasmas cresceram rapidamente em regiões com acesso facilitado a impressoras 3D e componentes, e sua apreensão se tornou uma prioridade para as autoridades por dificultar rastreamento criminal.
Partindo de uma visão simplista, o impacto das armas fantasmas na segurança pública vai além do número absoluto de apreensões. Seu principal efeito está na da capacidade do Estado de investigar e prevenir crimes armados. Uma vez que as armas fantasmas não possuem número de série, elas não podem ser rastreadas entre a fabricação e o comprador original, dificultando a conexão entre diferentes cenas de crime e reduzem a eficácia de bancos de dados balísticos tradicionais.
O Brasil possui um dos marcos legais mais restritivos em relação às armas de fogo, especialmente após o Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826/2003). A legislação estabelece regras rigorosas para fabricação, comercialização, posse e porte de armas.
No entanto, o avanço das armas fantasmas expõe lacunas importantes nesse arcabouço legal. Entre os principais desafios estão:
Embora a fabricação artesanal de armas seja crime no Brasil, a capacidade do Estado de detectar e coibir essas práticas ainda é limitada, especialmente em ambientes domésticos ou oficinas móveis.
Para enfrentar o desafio das armas fantasmas, especialistas apontam a necessidade de uma abordagem integrada, que combine a atualização da legislação, incluindo normas específicas sobre fabricação digital de armas, o fortalecimento da inteligência policial, com foco em redes de produção clandestina, a cooperação internacional, especialmente no controle de contrabando de peças e a regulação do ambiente digital, respeitando direitos fundamentais, mas limitando a disseminação de projetos de armas.
O avanço da tecnologia de impressão 3D democratizou o acesso a ferramentas sofisticadas de fabricação, permitindo que indivíduos imprimam — parcial ou integralmente — componentes de armas de fogo em ambientes foras do controle estatal. Embora a tecnologia tenha usos legítimos em educação, indústria, medicina etc., ela também se transformou em um instrumento facilitador para a produção de armas fantasmas.
A natureza descentralizada da fabricação por meio de impressoras 3D cria um desafio para órgãos de fiscalização e inteligência policial. Para lidar com esse desafio emergente, algumas estratégias de rastreamento e controle das impressoras 3D e seus insumos precisam ser implantadas.
Mas a questão é como rastrear e controlar as impressoras 3D? Um passo inicial seria focar nas impressoras de grande porte, que são capazes de fabricar componentes estruturais de armas de fogo. Equipamentos industriais e semiprofissionais, com capacidade de trabalhar com materiais de alta resistência (como nylon reforçado ou metal), seriam sujeitos a controle administrativo, por meio do fornecimento de dados da pessoa ou da empresa que adquiriu o equipamento, da sua produção e comercialização de produtos, formando um cadastro internacional.
Com uma base de dados consolidada, as forças de segurança podem ativar alertas automáticos quando equipamentos registrados são subutilizados ou associados a denúncias de fabricação clandestina.
Um segundo passo envolve os insumos. Muitos projetos de armas impressas em 3D ainda dependem de componentes metálicos críticos, como canos e mecanismos de disparo, que não são facilmente substituíveis por polímeros impressos em casa. O rastreamento do comércio de insumos como filamentos de alto desempenho, kits de fabricação e arquivos digitais com especificações técnicas, pode fornecer pistas sobre potenciais esquemas de produção clandestina.

Uma impressora 3D não funciona sem arquivos e software de impressão. Mecanismos de controle de produção, comercialização e circulação destes sistemas poderiam auxiliar significativamente na redução do comércio de armas fantasmas.
Um aspecto singular da fabricação digital é que documentos inteiramente virtuais — arquivos STL, STEP, IGES e G-code, entre outros— podem ser compartilhados globalmente pela internet sem qualquer controle físico. Isso torna difícil impedir que projetos de armas trafeguem pela rede. Contudo, algumas estratégias poderiam ser abordadas, como classificar como contrabando digital o compartilhamento de projetos completos de armas, estabelecer mecanismos de bloqueio ou remoção sob ordem judicial em grandes plataformas de distribuição e criar sistemas de marcação digital de projetos legítimos, para diferenciar usos industriais/regulados de tentativas de fabricação clandestina.
Um lado importante neste contexto refere-se ao fato de que a implementação de uma abordagem sistêmica e pesada sobre a aquisição e venda de insumos para impressoras 3D pode envolver questões relacionadas ao controle excessivo e cerceamento de direitos. Muitos usuários de impressoras 3D as utilizam para prototipagem, hobbies, educação e empreendedorismo. Para maior equidade seriam necessárias salvaguardas legais claras, limitações proporcionais quantitativas e garantias contra abuso por parte do Estado.
Outro exemplo poderia ser o impacto sobre a manutenção ou inclusão de acessórios em armas legalmente utilizadas para a prática das diferentes modalidades de tiro esportivo. Adaptações em coronhas de armas longas ou cabos e guarda-mato de armas curtas são exemplos onde um controle excessivo poderia afetar.
Estudos mostraram que seis armas diferentes totalmente produzidas em impressoras 3D utilizando o Ácido Poliático – PLA (um bioplástico termoplástico, biodegradável derivado de amido de milho ou de cana-de-açúcar e amplamente utilizado em impressões 3D) submetidas a testes de disparo mostraram que elas são realmente funcionais, mas que, dependendo do modelo, sofrem diferentes níveis de dano ao serem disparadas. No entanto, todas armas testadas ficaram inoperantes após uma descarga e não podiam ser utilizadas para disparos posteriores, a menos que os pedaços quebrados fossem substituídos.

O processo de disparo e as rupturas resultantes nas armas impressas em 3D liberaram fragmentos de peças de polímero de diferentes tamanhos e quantidades no ambiente. O lado positivo para a esfera forense é que as peças podiam ser fisicamente comparadas, permitindo a reconstrução e identificação das armas impressas em 3D.
Esta fragilidade de partes da arma que não suportam a pressão e temperatura geradas pelo disparo fazem com que maior número de armas apreendidas são compostas, pois misturam peças de aço com as produzidas em polímeros utilizados em impressoras 3D. Entretanto, como citado anteriormente, filamentos de matérias mais resistentes podem ser utilizados em impressoras industriais de maior custo.
Embora as armas fantasmas não tenham numeração de série, pesquisadores e peritos buscam métodos de rastreabilidade alternativa, como perfis balísticos tridimensionais de canos e marcas microscópicas deixadas durante a fabricação em impressoras 3D.
A balística tridimensional baseia-se em técnicas como escaneamento tridimensional de alta resolução, modelagem topográfica de superfícies balísticas, análise estatística multivariada, inteligência artificial por meio de algoritmos de aprendizado de máquina e, mais recentemente, a identificação automatizada de toolmarks.
Toolmarks, são marcas encontradas em um objeto, deixada pelo fabricante e/ou por uma das ferramentas utilizadas em seu processo de fabricação. No caso de impressão 3D, são marcas deixadas pelos componentes da impressora.
Um estudo realizado em 2021 já demonstrava como características específicas da impressão 3D, juntamente com técnicas clássicas de comparação de toolmarks utilizando estereomicroscopia e microscopia comparativa, podem ser usadas para estabelecer conexões entre dois objetos impressos em 3D, bem como entre um objeto impresso e uma impressora 3D suspeita. As conexões são determinadas com base em marcas finas aleatórias encontradas na plataforma aquecida (mesa) da impressora 3D, que são replicadas na face basal do objeto impresso. O filamento fundido, extrudado pelo bico da impressora 3D, constitui a face basal do objeto impresso, ou seja, a primeira camada impressa. Esse filamento fundido funciona como um “material de fundição” após esfriar e solidificar, permitindo a replicação das marcas finas. A resolução observada dessas marcas é tão alta quanto a resolução do material de fundição dedicado à replicação de toolmarks. Em suma, este estudo demonstra um método forense baseado na comparação de toolmarks para estabelecer conexões entre uma impressora 3D e seu objeto impresso.
Assim como uma arma (ou partes dela) pode ser produzida a partir de impressoras 3D, projéteis também podem ser produzidos, trazendo um novo cenário para os estudos balísticos e a composição de balísticos. Estes foram obrigados a evoluírem para um patamar mais avançado e ultrapassaram a simples catalogação de imagens bidimensionais. Os sistemas contemporâneos operam com modelos tridimensionais e integração de metadados complexos, incluindo: características geométricas do cano, tipo de material utilizado, parâmetros de fabricação digital e informações espaciais e temporais das ocorrências.
Esses bancos permitem análises de correlação probabilística e identificação de padrões recorrentes, possibilitando a formação de “famílias balísticas” associadas a determinados métodos ou projetos de fabricação.
Uma pesquisa realizada em 2025 constatou que projéteis impressos em 3D são adequados para uso em uma arma de fogo e adquirem as características da classe (calibre, número de raias, direção da torção, largura das raias e cheios e tipo de raiamento) e características individuais do raiamento (ranhuras microscópicas, desgastes e corrosão e marcas de dano), permitindo a identificação de uma bala com uma arma específica.
Os projéteis disparados na pesquisa apresentavam marcações reduzidas em comparação com balas convencionais, provavelmente devido à superfície de apoio do projétil derreter durante o processo de disparo. No entanto, foi constatado que reduzir a quantidade de propelente permitia que mais marcações fossem retidas para comparação. Testes adicionais revelaram que os projéteis podiam perfurar obstáculos comuns, incluindo drywall, compensado e vidro automotivo, e penetrar um colete à prova de balas. Os projéteis também adquiriam marcações da placa de construção da impressora, que podem ser usadas para conectar o projétil de volta à placa de construção.
Parece evidente que a investigação de armas fantasmas demanda integração entre balística forense e perícia computacional digital. Essa abordagem multidisciplinar possibilita não apenas a vinculação de um projétil a uma arma específica, mas também a identificação de redes de produção, distribuição informal e replicação de projetos.
Outro aspecto fundamental a ser considerado é que a tecnologia de impressão 3D evolui rapidamente, assim como as formas de camuflar a fabricação de armas. Para a eficácia dos mecanismos de controle, por parte do Estado, faz-se necessário a formação técnica especializada, notadamente nas esferas judiciais e de forças de segurança, por meio de parcerias com universidades, institutos de pesquisa e setor privado, além de investimento em laboratórios forenses modernos.
As armas fantasmas representam um dos mais complexos desafios contemporâneos ao controle de armas de fogo ilegais em todo o mundo. No Brasil, seu crescimento ocorre em um contexto de elevada circulação ilegal de armamentos, como evidenciam os dados de apreensões recentes. Trata-se de um fenômeno que combina tecnologia, crime organizado e lacunas regulatórias. Comparativamente com outros países, o número de apreensões de armas fantasmas parecer ser menor no Brasil. Entretanto, o cenário é preocupante e certamente exige respostas sofisticadas e coordenadas por parte do Estado.
O controle de armas fantasmas obriga o aprimoramento dos mecanismos tradicionais de controle de armas — como numeração, registro e rastreamento físico — para um modelo que também abranja tecnologias de fabricação digital, fluxos de dados e sistemas pela internet e cadeias de distribuição de componentes críticos. Neste sentido, a perícia criminal tem evoluído por meio de métodos avançados de interpretação de imagens, modelagem matemática de dados e inteligência artificial. Para tanto, a balística computacional e os bancos de dados avançados configuram instrumentos indispensáveis à modernização da perícia balística, permitindo a reconstrução científica de vínculos entre o artefato produzido e a impressora que o produziu, mesmo em contextos de fabricação ilegal.
Por fim, a natureza transnacional da internet e do comércio de insumos significa que nenhum país pode enfrentar sozinho a circulação de projetos digitais de armas ou de componentes físicos. Integrar o rastreamento de impressoras 3D — com medidas regulatórias, inteligência policial, cooperação internacional e respeito a direitos fundamentais do cidadão — pode, a longo prazo, impedir a expansão desse tipo de armamento clandestino. No entanto, isso exige políticas públicas inteligentes, atualizadas tecnologicamente e calibradas democraticamente.