Nova Perazzi MR57: mais um produto da marca ou um novo marco na história da empresa?
fevereiro 25, 2026
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A tradicional fabricante italiana de espingardas acaba de lançar um novo modelo, a MR57. Um modelo que busca unir ergonomia, equilíbrio, funcionalidade e a tradicional robustez de suas
A tradicional fabricante italiana de espingardas acaba de lançar um novo modelo, a MR57. Um modelo que busca unir ergonomia, equilíbrio, funcionalidade e a tradicional robustez de suas armas. Veja, neste artigo algumas características desta espingarda que promete um salto tecnológico em termos de conforto e precisão para diferentes modalidades de tiro ao voo.
Por Luiz Eduardo Dias
A Perazzi
Para aqueles que vivem o mundo do tiro ao voo, o nome Perazzi é uma referência de qualidade, precisão e beleza.
A história da Perazzi é, antes de tudo, a história de uma obsessão mecânica conduzida com rigor quase artesanal e visão competitiva clara. Surgida no norte da Itália, a marca construiu sua reputação no ambiente mais exigente possível: o tiro esportivo de alto rendimento, onde regularidade mecânica e equilíbrio dinâmico não admitem concessões.
O fundador, Daniele Perazzi, formou-se tecnicamente nas tradicionais oficinas de Brescia, região que há séculos concentra conhecimento armeiro especializado. Desde o início, sua proposta afastava-se da produção padronizada em larga escala. A espingarda, em sua concepção, deveria comportar-se como extensão do gesto do atirador — um instrumento cuja geometria funcional, distribuição de massas e resposta mecânica servissem ao movimento com previsibilidade absoluta.
Fundada no final da década de 1950, a empresa emergiu em um período de transformação do tiro esportivo internacional. Nesse contexto, a Perazzi introduziu soluções construtivas que se tornariam referenciais técnicos como sistemas de basculamento robustos e, sobretudo, o consagrado conjunto de gatilho removível, concebido para manutenção ágil e constância de desempenho sob uso intensivo em competição.
A projeção internacional consolidou-se com o desempenho de atletas com espingardas Perazzi em competições de elite, notadamente nos Jogos Olímpicos do México 1968. Ali, a marca demonstrou algo que se tornaria sua assinatura: repetibilidade mecânica sob condições operacionais severas. A partir desse marco, a presença da Perazzi nas linhas de tiro olímpicas passou a ser recorrente, sustentada menos por discurso institucional e programas intensos de marketing, mas sim por resultados reais.
No plano construtivo, a identidade da marca permanece ancorada em produção deliberadamente limitada, ajuste manual de componentes críticos e controle dimensional orientado à longevidade estrutural. Trata-se de uma manufatura que conjuga engenharia disciplinada e tradição técnica, sem subordinar o desempenho a demandas de volume. Esta visão se consolidou a partir da expressão de que cada espingarda confeccionada é única e deve ser ajustada às características de seu proprietário.
Em sua fase contemporânea, a Perazzi passou a fazer parte do Czechoslovak Group (CSG), movimento de natureza estratégica que ampliou sua capacidade de distribuição e inserção global da fabricante. O CSG é uma organização com mais de 100 empresas, com base em diferentes países europeus, gerando mais de 10.000 empregos e receita superior a um bilhão de euros.
Quando esta fusão ocorreu, críticos comentavam que a Perazzi iria perder sua identidade e se transformaria em uma empresa de produção extensiva e não artesanal. Contudo, seu DNA permaneceu, uma vez que a direção técnica e a condução produtiva permanecem sob responsabilidade da família Perazzi. Preserva-se, assim, um arranjo que combina capital e infraestrutura internacionais com autonomia técnica local — condição que permite expansão de mercado sem diluição dos princípios mecânicos que definem a marca. Ou sejam, a especificidade de cada produto, com uma linha semiartesanal e o foco em atender as especificações e o desejo de cada consumidor.
Para o atirador atento — especialmente no contexto do tiro ao prato e da busca por consistência – a trajetória da Perazzi oferece um ensinamento recorrente: quando o equipamento se torna uma referência estável, o gesto técnico encontra espaço para depuração. Nesse sentido, a história da marca não é apenas industrial; é também funcional, pois revela como disciplina construtiva e cultura de precisão podem convergir para um único objetivo: previsibilidade sob pressão de uso.
A Perazzi MR57
A MR57, é uma das novidades mais comentadas no mundo das espingardas de competição neste início de 2026. Ela foi apresentada oficialmente recentemente como uma evolução da linha Perazzi, fruto de anos de desenvolvimento técnico e testes diretos nos campos de tiro.
Perazzi MR57
A MR57 representa uma reinterpretação da filosofia histórica da Perazzi: união do artesanato de alta precisão com soluções que respondem diretamente às exigências dos atiradores atuais. Não se trata de simplesmente “uma nova versão”, mas de um projeto pensado desde o início para otimizar o relacionamento entre atirador e arma.
De acordo com o site da Perazzi, a MR57 segue as diretrizes de seu fundador Daniele Perazzi, por meio de uma visão clara do processo produtivo: ouvindo os atiradores, observando a performance nos campos de tiro e transformando a experiência em soluções técnicas concretas.
Principais características da Perazzi MR57
Um novo design de báscula na procura de maior equilíbrio e naturalidade para o gesto de tiro. Imagem: Perazzi.
Projeto da báscula redesenhado — o corpo da arma foi cuidadosamente reformulado para oferecer um encaixe que favoreça equilíbrio e controle, indo além da estética e privilegiando a ergonomia e a funcionalidade real no disparo.
Projeto de canos, cone de forçamento redesenhados e totalmente manufaturados na Perazzi, com uma liga de aço de alta performance, garantindo consistência balística, menor recuo e permitindo, inclusive, a utilização de munição com esferas de aço;
Linhas mais nítidas e balanceamento revisto — a distribuição de pesos foi ajustada para melhorar a dinâmica do swing e a resposta ao movimento, sinalizando que a Perazzi continua a colocar o gesto de tiro no centro do desenvolvimento de seus produtos;
O melhor equilíbrio proposto busca reduzir ainda mais a sensação de recuo e aumentar a suavidade do disparo, ao mesmo tempo em que preserva a confiabilidade mecânica tradicional.
Diferentes opções de varilha e sideribs ampliam a possibilidade de customização da MR57
Um grande diferencial proposto pela empresa é a possibilidade de customização da espingarda conforme a necessidade de cada atirador. As espingardas podem ser encomendadas de acordo com as seguintes possibilidades:
– Comprimento dos canos: de 61 cm até 90 cm
– Calibre: 12
– Câmara: 70 e 76 mm
– Choques: a empresa optou pela utilização de choques da GEMINI, que foram desenhados especialmente para a MR57, tornando-os mais leves. Existem modelos fixos variando de 0/10 até 11/10 e multichoques
– Varilha (rib): 11×11 – 11×7 e 7×7 mm
– Sideribs (banda lateral de união dos canos): sólida, meio sólida, ventilada, meio ventilada e ausente
– Báscula: niquelada ou oxidada (blued)
– Alma: 18,6 mm
– Cone de forçamento: apesar de não termos detalhes a este respeito, a empresa comenta que foram redesenhados, buscando melhorar o padrão de tiro, a velocidade e equilíbrio, sem comprometer a confiança e durabilidade
– Coronha e soleira: redesenhadas para garantir a continuidade do padrão Perazzi na busca de um equilíbrio entre controle e o movimento natural de tiro.
Apesar das diferentes possibilidades de customização a empresa sugere configurações básicas para três das disciplinas mais praticadas de tiro ao voo na Europa:
– Fossa Olímpica
Comprimento de cano: 75-76 cm
Câmara: 70 – 76 mm
Choques: multichoques ou fixos
Varilha: 11×11 mm
Sideribs: ventilada ou metade ventilada
– Skeet
Comprimento de cano: 73-75 cm
Câmara: 70 – 76 mm
Choques: multichoques ou fixos
Varilha: 11×11 mm ou 11×7 mm
Sideribs: sem
– Sporting
Comprimento de cano: 78-84 cm
Câmara: 70- 76 mm
Choques: multichoques ou fixos
Varilha: 11×11 mm, 11×7 mm ou 7×7 mm
Sideribs: metade ventilada
A MR57 versus plataformas clássicas, como a MX8 e HT
O MR57 nasce como projeto de atualização estrutural, não apenas cosmética. A ênfase está na báscula redesenhada e na distribuição de massas mais progressiva ao longo do conjunto. Na prática, a arma tende a apresentar: sensação de inércia mais “contínua” no swing (movimento de tiro), com transições suaves entre aceleração e parada; resposta ao disparo mais controlada, fruto de revisão de canos e geometrias internas; ergonomia que privilegia estabilidade sob cadência de tiro elevada.
MX8 — o paradigma funcional
O MX8 permanece como o arquétipo Perazzi. Sua virtude maior é a neutralidade mecânica: nada sobra, nada falta. Possui um equilíbrio clássico e leitura imediata de alinhamento; também possui gatilho removível consagrado pela robustez e fácil manutenção.
Comparativamente, parece que a MR57 busca ir além da neutralidade da MX8 ao oferecer um balanço mais “assistido” pelo projeto estrutural. Onde a MX8 é referência estável, a MR57 parece pretender ser uma referência refinada.
High Tech — racionalização industrial com desempenho elevado
A série High Tech introduziu um enfoque mais industrial na produção, com a báscula de geometria técnica e processos modernos de usinagem. Possui excelente rigidez estrutural; distribuição de peso eficiente, porém mais “direta” na leitura do movimento; e uma proposta de desempenho com ênfase em confiabilidade e repetibilidade.
A MR57 aproxima-se do High Tech na busca por eficiência estrutural, mas diferencia-se ao revisar a dinâmica do conjunto com maior atenção ao balanço progressivo e à ergonomia do disparo, não apenas à robustez.
Uma das diferenças marcantes entre a MX8 e a HT é que a largura da báscula da HT é cerca de 2,0 mm maior que a da MX8, o que acarreta um pequeno acréscimo em seu peso. O que supostamente traz maior equilíbrio para o movimento de tiro.
Até o momento, o site da empresa não informa a largura da báscula da MR57, sabe-se apenas que ela foi alterada em seu design em relação aos modelos HT e MX8.
Se a MX8 simboliza a tradição funcional e a High Tech a eficiência estrutural, a MR57 posiciona-se como evolução de arquitetura: um esforço de engenharia para organizar massas, resposta ao disparo e ergonomia em um conjunto mais coeso. Não se trata de ruptura, mas de aprimoramento — um passo calculado na direção de maior previsibilidade mecânica sob as exigências do tiro competitivo atual.
De acordo com os fóruns de tiro ao prato, as primeiras impressões de quem acompanhou demonstrações em feiras, como a clássica The Great British Shooting Show, e viu a MR57 pessoalmente, destacam ajustes importantes na distribuição de peso (comparável a séries como a High Tech, porém com refinamentos adicionais) e alterações nos cones de forçamento que, teoricamente, devem resultar em uma reação mais controlada ao disparo, entenda-se menor recuo.
Qual o custo da MR57?
Quanto ao preço de venda, relatos iniciais de feiras europeias mencionam valores entorno de 15.000 euros, posicionando o MR57 num segmento alto, próximo de outros modelos de ponta como o SL2 da Beretta. Todavia, Como não se encontra nenhuma informação oficial da fábrica, este valor é, ainda, uma especulação dos fóruns especializados.
Resumindo
Enfim, o lançamento da MR57 causou um impacto no cenário do tiro esportivo ao voo. As informações disponíveis a colocam como uma arma de alta tecnologia, que possui grande potencial para atender as exigências de atletas de alto rendimento. Todavia, por ser um lançamento recente, cujas informações sobre suas características técnicas ainda são incompletas, não há como afirmar que será um novo “limestone” da Perazzi. Resta-nos esperar para ver.