Cerrado, ecossistema forte e imponente

O Cerrado brasileiro é reconhecido como a savana mais rica do mundo, abrigando 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas. Não é o acaso que faz com que o Cerrado seja um bioma tão rico em biodiversidade: além das espécies vegetais é habitat de quase 200 diferentes mamíferos. 

O fato de o bioma Cerrado estar no meio das três maiores bacias hidrográficas do país — São Francisco, Tocantins-Araguaia e Prata — não é coincidência. Também não é acidental que paisagens exuberantes se transformem lentamente em coberturas vegetais de menor porte a cada passo rumo aos picos de Minas Gerais. 

Com vegetação mais baixa, retorcida, esparsa, o Cerrado parece acuado, quase constrangido. É quando surge, em meio ao ocre, um imponente buritizeiro e as palmeiras se erguem em direção às nuvens e deixam pender delas frutos vermelhos. Mais adiante, a paisagem volta a se assemelhar a um sertão, com a vida a esvair-se quando se olha para o chão, e centenas de minúsculas flores coloridas enfeitam também o solo. Não demora muito, e uma elegante orquídea se destaca. O Cerrado é assim, um pouco como a gente mineira — não se mostra por completo ao primeiro olhar, é sempre mais imponente e mais forte que o que deixa à mostra. 

O Cerrado está no meio de três grandes bacias hidrográfica do país. Na foto, o Rio São Francisco na região de Três Marias – MG.

Conheça o Cerrado brasileiro

Mistérios do interior

Desse ecossistema envolto por mistérios, fazem-se 57% de Minas Gerais. A savana mais rica do mundo, qualificam alguns. A única que se recusa a hibernar por completo. Enquanto parte da vegetação perde o verde das folhagens, outras espécies, antes adormecidas, recobram a vida e insistem em colorir os campos de diferentes tonalidades de verde, que resistem ao sol forte e brincam com a paisagem. Parte da sua força vem das tais águas que a cortam, dezenas de rios que serpenteiam sobre e sob essas terras repletas de lençóis freáticos pouco profundos. São as bacias do São Francisco, do Grande, do Paranaíba e do Jequitinhonha que gotejam vida pelo sertão mineiro.

50% desse ecossistema está em Minhas Gerais.

Esse capricho da natureza garante a sobrevivência de mais de 10.000 espécies de plantas já catalogadas, e quase 50% simplesmente se recusam a viver em outro lugar: são as chamadas endêmicas, características de uma única região. Áreas de formação florestal convivem com plantas com a aparência seca e vastos campos de gramíneas que parecem estar lá para lembrar que o Cerrado, que chega a enfrentar cinco meses de estiagem anualmente, é só para os fortes. 

E, assim, o Cerrado assume várias personalidades. É campo limpo nas regiões mais planas e nos vales, quando assume uma face quase sem mata, cobertas de gramíneas. Quando alguns arbustos aparecem, ainda que espaçados, estamos enfrentando um campo sujo. Por vezes, sua feição se torna mais florestal e é transformada em mata seca, com muitas árvores que perdem as folhas em longos períodos sem chuva, ou matas ciliares, próximas de cursos d’água que as deixem verdes por todo o ano. Já no cerradão, é a personalidade mais imponente que vem à tona, com árvores que podem alcançar 15 metros de altura. 

Os campos de altitude do Cerrado.

Da junção de todas essas peças, forma-se o Cerrado que se espalha entre o Triângulo Mineiro e as regiões Centro e Noroeste do Estado. Dali, brotam reluzentes quaresmeiras, ipês, jacarandás. E, ainda, a arnica, a jurubeba e a copaíba, que, ao lado de mais de 200 outras espécies, oferecem curas quase mágicas aos mais diferentes males. Do óleo da copaíba, faz-se um anti-inflamatório natural, o bálsamo dos sertanejos. A arnica, por sua vez, estanca o sangue dos feridos, enquanto a jurubeba ajuda “quem comeu e não gostou” a fazer as pazes com o sistema digestivo. 

Para quem quer comer e gostar, o Cerrado também oferece vastas opções. Gabirobas, jabuticabas e pequis enchem os campos com sabores que agradam homens e fauna local.  

O bioma é rico em mananciais de água.

Com sua copa frondosa, o pequizeiro é uma das árvores-símbolo do bioma. Seu fruto de casca verde, caroço cheio de espinhos e sabor peculiar é o mais consumido e comercializado pelos moradores desses sertões. Dezenas de receitas elevam à máxima potência o aproveitamento do pequi, que vira de licores a pratos sofisticados nas mesas da região. 

A seriema, ave típica do bioma.

Outra apreciada planta do bioma é a catuaba, com propriedades afrodisíacas e estimulantes. O jatobá também se destaca, com frutos nutritivos e madeira dura e resistente, que costuma chegar à construção civil e à naval. E, já que mudamos de assunto e começamos a falar de madeira, também o murici é muito procurado pelas qualidades dos seus troncos. A tudo isso, soma-se as plantas de admirável beleza, procuradas pelo valor ornamental. Os frondosos ipês-amarelos são os primeiros a saltar aos olhos nesse quesito, mas não são os únicos. A rosa-do-cerrado, por exemplo, com delicadas flores róseas, também colorem e decoram o ambiente.

Música do sertão

Para dar ritmo a toda essa riqueza vegetal, chegam, sempre em pares ou pequenos grupos, as seriemas. Seu canto agudo, por vezes assemelhado a uma sonora gargalhada, é chamado de “voz do Cerrado”. Essa ave que gosta mais de correr que de voar comumente se encontra com outra, de hábitos parecidos e que também é símbolo do bioma, a ema. A maior ave das Américas faz um bom uso do cardápio oferecido e, entre uma corrida e outra, come de frutos e sementes a insetos — passando por pequenas pedras que ingere para ajudar na trituração dos alimentos. 

Ema, a maior ave das Américas habita o Cerrado.

Emas e seriemas são apenas duas das mais de 800 aves conhecidas no Cerrado. Outras espécies — algumas imponentes, como o tucano, outras belíssimas, como a arara-azul — também gorjeiam por lá. Para outros animais, o calor escaldante é tão opressor que eles preferem passar a maior parte da vida embaixo da terra. É o caso de diversas espécies de cobras e lagartos que habitam as galerias subterrâneas da região. Muitos dos cerca de 200 mamíferos desse rico bioma também se adaptaram à vida escondida do brilho do sol e preferem gastar os dias em tocas e abrigos. Escapam, assim, não apenas das temperaturas extremas, mas também de predadores.

Veado-campeiro, mas uma espécie rara do Cerrado.

Um dos mais interessantes representantes desse grupo é o tamanduá-bandeira. Ele pode ser visto à noite, alimentando-se em cupinzeiros e formigueiros, principalmente na região da Serra da Canastra – apesar de isso ser cada vez menos comum, já que o animal está ameaçado de extinção. Na mesma região, abundam os lobos-guará, outro mamífero de hábitos noturnos que encanta quem com ele se cruza. Também a onça-pintada, o veado-campeiro e o mico-estrela podem ser vistos no Cerrado. 

O Cerrado revela lindos cenários como a Cachoeira do Tabuleiro na Serra do Espinhaço

Pelas águas, ora calmas e claras, ora bravias e velozes, que atravessam esse sertão, nadam cerca de 1.200 espécies de peixes, algumas fundamentais para a economia da gente da região, como o surubim ou o dourado. Répteis são 180 e anfíbios são 120 espécies. Vale lembrar, porém, que estamos falando de um enigmático bioma, que esconde muitos segredos; pesquisadores são unânimes em dizer que ainda há muitas espécies vegetais e de animais desconhecidas no Cerrado. 

Ouro perdido

Como um baú de tesouro que se enferruja antes de ser encontrado, toda a riqueza do Cerrado tem sido destruída pelo homem. Hoje, restam menos de 20% da sua cobertura original. Apesar de o isolamento ter mantido o brilho do Cerrado por quase todo o período colonial brasileiro, a entrada de bandeirantes em busca de índios e minérios no século XVII marcou o início do apagar do bioma. Registros de jesuítas garantem que foi um mulato, ao beber água em um ribeirão, que acabou por encontrar a primeira pepita de ouro em Minas Gerais, em 1693.

Gavião-Cacará na sua morada na região da Serra da Canastra.

A partir daí, arraiais e vilas começaram a ser criados em torno dos rios que jorravam ouro e lugares como Vila Rica (atual Ouro Preto) e Ribeirão do Carmo (atual Mariana) se tornaram o epicentro econômico, cultural e político do país. Abriu-se a porta para que o Cerrado intocado começasse a receber os homens. Não demorou muito para seus campos serem convertidos em pastagens de gado zebu e plantação de gêneros alimentícios que serviriam para manter o resplendor da região do ouro. 

Uma paisagem das matas de Cerrado.

Com o esgotamento das minas, descobriu-se a vocação de regiões como o Triângulo Mineiro e o Noroeste do Estado para a agropecuária. A construção de Brasília, na década de 1950, veio, então, para selar o trágico destino de grandes campos de Cerrado. A existência da capital federal incentivou a chegada de novos investidores, e a região se transformou na nova fronteira agrícola. O sertão sucumbiu diante da soja. Mineração, pecuária extensiva e monoculturas acabaram com 80% da cobertura original do Cerrado. O que sobrou luta contra o poder econômico e se protege dentro de fronteiras de parques e áreas de proteção ambiental. As principais delas são os parques da Serra do Cipó, da Serra da Canastra e o Grande Sertão Veredas.

Se, de um lado, o Cerrado luta para sobreviver, na outra encosta da imponente Serra do Espinhaço, é outro bioma que resiste diante do homem, a Mata Atlântica. Na cordilheira que impõe sua força para o alto, estão não apenas os mais impressionantes e majestosos picos do estado, como o Itambé e o Pico do Sol. No alto da cadeia de montanhas que inicia trajetória no Quadrilátero Ferrífero e segue caminho até a Chapada Diamantina, na Bahia, surgem, da fusão do Cerrado com a Mata Atlântica, os campos rupestres, repletos de sempre-vivas.

As águas, ora calmas e claras, ora bravias e velozes, que atravessam esse sertão.

As flores, tão delicadas quanto imortais, dominam a paisagem de Serro a Diamantina. Com a mania de se manterem belas, mesmo depois de arrancadas as suas raízes e secas as suas folhas, as sempre-vivas ajudam a eternizar as tradições do povo da região. Dezenas de comunidades extrativistas se espalham pelas pradarias que abrigam mais de 70% das espécies dessas flores. A prática já levou quase ao desaparecimento de algumas espécies, mas o desenvolvimento de projetos de manejo ajudou a diminuir o impacto da atividade. Mais uma vez, as sempre-vivas resistiram. Em 2002, ganharam um parque só para elas, o Parque Nacional das Sempre-Vivas, no Mosaico de Unidades de Conservação do Espinhaço.