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A CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE TIRO ESPORTIVO – CBTE E A CULTURA DO TIRO NO BRASIL

  • abril 13, 2026
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Por: Ana Marceli M. N. de Souza Revisado por: Jorge Melo Filho O ano de 2026 é festivo para todos nós confederados, pois a Confederação Brasileira de Tiro

A CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE TIRO ESPORTIVO – CBTE E A CULTURA DO TIRO NO BRASIL

Por: Ana Marceli M. N. de Souza

Revisado por: Jorge Melo Filho

O ano de 2026 é festivo para todos nós confederados, pois a Confederação Brasileira de Tiro Esportivo comemora 120 anos como guardiã e promotora nacional da CULTURA DO TIRO ESPORTIVO.

O Estatuto Social CBTE estabeleceu como um de seus objetivos “incentivar e valorizar o registro da memória e a transmissão de informações aos atletas mais jovens, como meio de garantir a continuidade e a identidade cultural do esporte.” (art. 4o, inciso X).

Mas o que se entende por identidade cultural? Será apenas ter museus, com exposição de objetos que contam histórias de conquistas, quadros de honra de atletas de maiores destaques, registros de recordes? Ou há algo mais profundo?

Para melhor compreendê-la é preciso relembrar algumas definições sobre o que é cultura e porque o esporte do tiro pode ser considerado uma manifestação cultural.

A palavra latina CULTURA (culturae) tem origem do latim e significa “cultivar” ou “cultivar a mente e os conhecimentos”.

De acordo com o Dicionário On-line de Português, ela também é compreendida como o conjunto de “estruturas sociais, conhecimentos adquiridos e manifestações intelectuais, artísticas, que caracterizam uma sociedade, diferenciando-a de outras“.

A Cultura pode ser entendida como a prática reiterada de costumes e tradições repassadas. No que se refere ao Tiro Esportivo, sua disseminação decorreu de diversas etnias de povos que migraram para o Brasil. Destaca-se neste contexto, especialmente, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

A Cultura do Tiro refere-se à história, tradição, identidade e valores que são associados à disciplina e ao esporte, no caso, a Caça e o Tiro Esportivo. Este foi introduzido nos Estados do Rio Grande do Sul e, também, em Santa Catarina no final do século XIX por Italianos, suíços e alemães que se alojaram nestas regiões, incorporando-os largamente ao contexto sociocultural e esportivo da região.

No artigo intitulado ASSOCIAÇÕES ESPORTIVAS PARAMILITARES EM SANTA CRUZ DO SUL: ESPAÇOS DE LEGITIMAÇÃO SOCIAL E LAZER (1880 – 1900), Alice Beatriz Assman, Rafaela Bertoldi e Janice Zarpellon Mazo (2016) explicaram que nas festividades, representações culturais e de entretenimento, ocorriam também importantes momentos esportivos que incluíam o manejo de armas como expressão sociocultural.

 Foram os imigrantes alemães os pioneiros na construção de clubes de tiro no Brasil como expressão de congraçamento, bem como para o aprimoramento de técnica, da segurança e da caça. Desse modo, o tiro esportivo deve ser considerado como uma manifestação sociocultural.

Há ainda um questionamento a ser respondido: Como o tiro esportivo foi propagado no Brasil? Como ocorreu sua nacionalização? Considerando relatos de que, inclusive, até no estado do Amazonas existia a prática e a Sociedade de Tiro no início do século XX (1909)?

Eduardo Fernandes Ferreira, respondeu e justificou essas questões nos livros publicados e relacionados ao tema.  Suas obras A História do Tiro ao Alvo (1986) e a História do tiro esportivo brasileiro 1906-2016 (2016) relataram a chegada dos imigrantes no Sul a partir da qual estabeleceram-se 3 correntes de implantação, a saber:

 Como primeira corrente elencou a prática da caça e as reuniões festivas das chamadas SOCIEDADES DE TIRO que foram introduzidas pelos imigrantes alemães e consistiram em modelos organizacionais embrionários das posteriores entidades esportivas, já institucionalizadas. São consideradas patrimônios imemoriais e culturais.

Blumenauer Schutzengesellshaft-verein (Sociedade de Atiradores de Blumenau). Santa Catarina. Fundação 2/12/1859.  Fonte: https://blumenau.portaldacidade.com/noticias/cultura/

Os mais antigos registros dessas Sociedades datam de 1859, mas há notícias de uma “primeira referência encontrada sobre o tiro ao alvo no estado do Rio Grande do Sul.”(ASSMANN, 2012). Trata-se de um pedido de licença no ano de 1852 para abertura de um local destinado ao tiro. Seu autor foi Miguel Kröeff ou Kroeff, “um dos pioneiros da colonização alemã na região periférica de Santa Maria (Itaara/RS).

A primeira referência sobre a prática do tiro ao alvo no estado do Rio Grande do Sul refere-se ao ano de 1852, “quando um súdito prussiano de nome Miguel Kröff, solicita ao presidente da Província licença para estabelecer na várzea uma casa de divertimentos públicos, onde haveria uma linha de tiro ao alvo” (OLIVEIRA, 1996:160). Identificou-se que Miguel Kröff foi o fundador em 1846 da localidade de “Santa Maria da Bôca do Monte – Pinhal” (ROCHE, 1969:142), atual município de Santa Maria. Contudo, não foram localizadas informações sobre a obtenção ou não de licença para a instalação da casa de divertimentos.  (ASSMANN, 2012;129).

As mulheres, também, tiveram suas próprias sociedades para praticar o esporte. As pesquisas de Alice Assmann (ASSMANN; MAZO, 2013), encontraram indícios de que já competiam desde o final do século XIX, contudo, somente no início do século XX, em 1900, que lograram êxito e conseguiram o seu espaço – As Sociedades das Damas.

Até fins do século XIX as associações de tiro eram voltadas para a prática e lazer exclusivamente dos homens, as mulheres representavam o papel de esposas, mães, acompanhantes, auxiliares. Elas embelezavam e organizavam os festejos para os homens. Na transição do século XIX para o XX, as mulheres conquistam espaço como praticantes de tiro, organizando suas sociedades próprias: as sociedades de damas. (ASSMANN 2013).

A segunda corrente de implantação do tiro no Brasil, de acordo com FERREIRA (2026), diz respeito à uma tradição que ainda é praticada por Clubes do Sul: o TIRO DO REI.

As Sociedades de Tiro introduziram uma comemoração realizada uma vez ao ano. Os festejos duravam dias e neles ocorriam competições com o objetivo de conceder ao campeão o título de “Rei do Tiro”.


 

Convite da 115ª edição do Tiro Rei da Sociedade da Linha Clara-Teutônia/RS.
Imagem @rotagermanicateutonia

Por fim, com a disseminação dessas práticas culturais, por volta de 1899, surgiu o interesse do Exército Brasileiro (EB) de “coordenar as atividades das Sociedades de Tiro”, o que resultou na criação do Tiro Nacional abrangendo tantos civis quantos militares.  Assim, estabeleceu-se os Tiros de Guerra (TG).

De acordo com o Cel. Inf. Maykon Dutra Barbosa, almejava-se a formação de reservistas e a conscientização de direitos e deveres, bem como do “civismo, da cidadania e do patriotismo”.

O TG surgiu após o químico farmacêutico Antônio Carlos Lopes viajar pela Suíça e conhecer a grande capacidade de mobilização daquele país e inspirar-se nas vantagens de possuir uma reserva mobilizável numerosa. Assim, em 1902, já de volta ao Brasil, Antônio Carlos Lopes criou o primeiro TG brasileiro na localidade de Rio Grande – RS, denominado Sociedade de Propaganda do Tiro Brasileiro e tinha como objetivo ministrar os rudimentos da instrução de tiro a cidadãos civis.

O pioneirismo gaúcho foi seguido por outros municípios brasileiros, a tal ponto que, logo em 1906, o EB criou a Confederação do Tiro Brasileiro cuja finalidade era controlar e disciplinar as sociedades de tiro. Sua primeira sede foi na própria Rio Grande, tendo sido transferida para o Rio de Janeiro. (OLIVEIRA, 2007, p. 18).  (BARBOSA, 2022) . (Original sem destaque).

Imagem da Biblioteca Nacional: Os Campeões olímpicos de 1920 – Guilherme Paraense e Afrânio Costa. Fonte:https://blogdabn.wordpress.com/2016/03/14/biblioteca-nacional-jogos-olimpicos-rio-2016-tiro-esportivo/

Das associações de tiro a CBTE

Essa institucionalização foi considerada a terceira corrente de implantação do tiro e dela nasceu a Sociedade de Propaganda do Tiro Brasileiro, os Tiros de Guerra, disseminando-o para o resto do País, alcançando lugares antes inimagináveis, servindo de motivo para o General Hermes da Fonseca criar a CONFEDERAÇÃO DO TIRO BRASILEIRO (CTB).

Historia da CBTE
Sociedade de Tiro Brasileiro. Linhas de Tiro em Manaus/AM. Revista O Malho. Ed. 338. Ano VIII – 6 de mar.1909. https://idd.org.br/iconografia/sociedade-de-tiro-brasileiro-no-amazonas/

O que iniciou como uma prática tradicional de colonos do Sul, disseminada no Brasil por seus descendentes e pela Sociedade de Propaganda do Tiro Brasileiro, constituiu-se em legado cultural.

Sua guarda e perpetuação tornaram-se missão primordial da, hoje, denominada Confederação Brasileira de Tiro Esportivo-CBTE para as novas gerações.

O esporte regionalizado passou a ter alcance nacional.

No dia 05 de setembro de 1906, por força do Decreto Legislativo no. 1.503, foi criada a Confederação do Tiro Brasileiro-CTB, com sede no Rio Grande do Sul, vinculada ao Estado Maior do Exército Brasileiro. A partir daí, iniciou-se a jornada esportiva que conhecemos, orquestrada pela CTB e sucessoras há 120 anos.

No decorrer dessa caminhada, a Guardiã cultural do tiro no Brasil se sobrepôs a inúmeros desafios, pois precisou ser inventada, reinventada, recriada e reestruturada diversas vezes. Esta constatação está demonstrada no Preâmbulo de seu Estatuto Social.

Trocou-se a roupagem e denominações nesses 120 anos, mas não a finalidade, por isso a CBTE apresenta-se por diversas denominações:         

  • CTB–CONFEDERAÇÃO DE TIRO BRASILEIRO (1906-1923);
  • FBT–FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE TIRO (1923-1927 e 1935-1942);
  • CBCT-CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE CAÇA E TIRO (1942-1947);
  • CBTA-CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE TIRO AO ALVO (1947-1994);
  • CBT-CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE TIRO (1994-1999);
  • CBTE – CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE TIRO (1999…).

Além de conservar o elo e a memória do passado, a missão da CBTE de perpetuar a Cultura do Tiro vai além das conquistas das primeiras medalhas Olímpicas do Brasil. Ela regressa às migrações dos alemães e demais povos no Sul do Brasil, especialmente, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Essa conservação não é estática, é dinâmica, pois está inserida nas ações de estimular e difundir o esporte no presente, através do cumprimento de seus objetivos estatutários: a realização de competições periódicas, incluindo a participação de damas, idosos e jovens; a promoção e estímulo de campeonatos interestaduais, regionais, nacionais e internacionais; a formação de atletas, mediante a estruturação e promoção do desenvolvimento técnico para a  manutenção e preservação das modalidades sob sua gestão, etc.

 Entre os objetivos acima citados, há ainda o que é considerado o mais importante de todos na atualidade: o de alcançar meios de viabilizar a prática desportiva no Brasil, possibilitando alternativas que assegurem o acesso, a aquisição de equipamentos (armas), munição e demais insumos  vitais. Desta maneira cumprindo a finalidade para a qual a CBTE foi criadaDESENVOLVER O TIRO ESPORTIVO NACIONAL.

O cumprimento dessa missão foi diversas vezes testado por imposições de adequações externas. Algumas vezes passou pelo doloroso processo de extinguir, criar, recriar, divergir, reformular e repaginar.

 A roupagem e denominações mudaram nesses 120 anos, mas não a finalidade. O legado permanece preservado pela resiliência de homens apaixonados pelo esporte, entre eles o Dr. Afrânio Antônio Costa. 

Enquanto existirem atletas em condições de praticar o Tiro Esportivo no Brasil, a CBTE seguirá perpetuando a Cultura do Tiro. Deste modo, perseguindo caminhos, para formar campeões dignos da glória do pódio e honrando a memória de todos edificaram tão belo e nobre esporte.

Ana Marceli Martins Nogueira de Souza. Advogada, Especialista em Direito Processual Civil, Assessora Especial do Ministério Público de Contas do Estado de Roraima. Vice-Presidente da Associação Desportiva Hubertus RR. Autora dos livros ‘Damas do Tiro ao Prato Olímpico Brasileiro’ (2025) e Para Trap Brasil. A Jornada ao Tiro Paralímpico (2026). Atleta de Tiro Esportivo filiada à Federação Gaúcha de Caça e Tiro. Clube Caxiense de Caça e Tiro RS e Associação de Tiro Internacional da Região de Americana – ARENA A.T.I.R.A. SP.

Revisado por: Jorge Siqueira de Melo Filho. Cirurgião Dentista UFSC. Especialista em Endodontia UFSC e Fisiologia UDESC SC. Mestre em Endodontia UNITAU SP. Professor Titular das Disciplinas de Endodontia e Anestesiologia   UNIPLAC  SC. Coordenador do Curso de Especialização em Endodontia UNIPLAC SC.  Editor da Revista Tiro ao Prato. Atleta de Tiro Esportivo filiado à Federação Esportiva de Tiro e Caça de Santa Catarina, Federação Gaúcha de Caça e Tiro. Clube Caça e Tiro 1 de Julho Lages SC, Clube Caxiense de Caça e Tiro RS. Clube Lageano de Caça e Tiro Altos da Serra SC.

Decreto da criação da Confederação do Tiro Brasileiro de 1906. Fonte: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1900-1909/decreto-1503-5-setembro-1906-582999-publicacaooriginal-105775-pl.html#:~:text=Portal%20da%20C%C3%A2mara%20dos%20Deputados
Decreto de 1909 que manteve a Confederação do Tiro Brasileiro, estabelecendo o Rio de Janeiro (Capital Federal à época) como sede, entre outras providências. Fonte: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1900-1909/decreto-2067-7-janeiro-1909-775792-publicacaooriginal-139548-pl.html

Regulamento provisóriso da CTB – Decreto no. 6464, de 29 de abril de 1907. https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis/colecao3.html

Regulamento da CTB – Decreto no. 8083, de 25 de junho de 1910. https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis/colecao3.html

REFERÊNCIAS

ASSMANN, Alice Beatriz, MAZO, Janice Zarpellon .AS SCHÜTZENVEREINE – Sociedades de Atiradores – de Santa Cruz do Sul: um tiro certo na história do esporte no Rio Grande do Sul. UFRS 2012. Disponível em:   https://periodicos.uff.br>articles>dowload file:///Users/luizsouza/Downloads/rdct,+es2006.pdf .  Acesso em:  30 mar. 2026.

_______. As sociedades de damas atiradoras: pelos caminhos da prática do tiro ao alvo em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul.  2013. Disponível em:   https://www.scielo.br/j/refuem/a/h8vvhrxykrNW4dxTFywf7yG/?format=html&lang=pt https://doi.org/10.4025/reveducfis.v24.4.20528. Acesso em 30 mar. 2026.

ASSMAN, Alice Beatriz. BERTOLDI, Rafaela e MAZO, Janice Zarpellon. Associações Esportivas paramilitares em Santa Cruz do Sul: espaços de legitimação social e lazer (1880 – 1900). RS. UFRS. 2016. Disponível em:  https://periodicos.ufmg.br  file:///Users/luizsouza/Downloads/calves,+Gerente+da+revista,+ArtigoAlice-4.pdf Acesso em 04 abr. 2026.

AVELLO, Adriano Sequeira, CUNHA, Jorge Luiz da. Colônia do Pinhal: a fundação (1850-1857), Itaara-RS. História Unicap, v. 3, n. 6, jul./dez. de 2016 .  Disponível em:file:///C:/Users/marcelisouza/Downloads/Dialnet-ColoniaDoPinhal-5766755.pdf. Acesso em:  05 abr.  2026.

BARBOSA, Maikon Dutra.O Tiro de Guerra como fator integrador entre o Exército Brasileiro e a Sociedade Civil.  Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2022. Bibliografia: f. 29-30.    Disponível em:https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/11346/1/MO%201048%20-%20MAYCON%20Dutra%20Barbosa.pdf. Acesso em:  06 abr. 2026.

https://blogdabn.wordpress.com/2016/03/14/biblioteca-nacional-jogos-olimpicos-rio-2016-tiro-esportivo/ . Acesso em 10 abr. 2026.

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https://blumenau.portaldacidade.com/noticias/cultura/a-historia-dos-clubes-de-caca-e-tiro-de-blumenau-e-a-ligacao-com-a-oktoberfest-1649. Acesso em: 9 abr.2026.

https://www2.camara.leg.br. Acesso em 12 abr. 2026.

https://www.cbte.org.br/wp-content/uploads/estatuto-novo-compacto.pdf Acesso em:  27 abr. 2026.

CULTURA. In: DICIO Dicionário On-line de Português.7Graus. Disponível em: https://www.dicio.com.br/cultura/. Acesso em:  27 abr. 2026.

FERREIRA, Eduardo Fernandes. A História do tiro ao alvo. Porto Alegre: Pallotti, 1986.

_______.História do tiro esportivo brasileiro.1906-2016. 1 ed. Editora Altadena. 2016.