DOMINÂNCIA OCULAR CRUZADA: UMA QUESTÃO IMPORTANTE PARA O TIRO ESPORTIVO

olho dominante

A dominância ocular cruzada pode ser uma dificuldade a mais para muitos praticantes de tiro esportivo. Saiba como identificar e mitigar seus efeitos.

Por Luiz E. Dias

Você que é atleta de tiro esportivo já teve aquela sensação de errar um tiro em que seu cérebro dizia que seria perfeito? Ou você é daqueles que ao colocar uma arma longa nos ombros para fazer a visada com os dois olhos abertos acaba por enxergar duas massas de mira, ou pior, duas pontas de cano? Pois é, se você passa ou já passou por esta situação, você pode ser um atirador esportivo como eu, que tem dominância ocular cruzada.

O que é Dominância Ocular?

Quando olhamos para um objeto, nossos olhos convergem para dentro até que se fixem nele. Como nossos olhos estão separados por alguns centímetros, a visão de cada olho será ligeiramente diferente, o que é conhecido como disparidade binocular. Felizmente, nosso cérebro é poderoso o suficiente para combinar essas duas imagens em uma única imagem 3D. Como acontece isso? A maioria das pessoas tem olhos que não se comunicam com o cérebro em base de igualdade, existindo uma dominância de um ou outro olho. De maneira simplificada podemos dizer que o olho dominante tem mais conexões neurais com o córtex visual do cérebro, o que permite que ele forneça informações mais rápidas e precisas. Assim, pode existir dominância ocular esquerda e dominância ocular direita.

Esquema ilustrativo das imagens geradas pelo olho esquerdo e direito e a formação de uma única imagem pelo cérebro.

Entretanto, existe a situação em que nenhum dos olhos é fortemente dominante. De uma maneira simplificada, podemos imaginar uma corrida na qual o lado direito e o esquerdo estariam competindo para transportar informações de imagens do olho para o córtex visual do cérebro e processá-las. Na maioria dos casos é uma disputa empatada. Esta situação recebe o nome de dominância ocular central. Todavia, para algumas pessoas pode existir, ainda, o deslocamento ocular central. Neste caso, passa a existir a influência de um olho sobre o outro, mas não uma dominância propriamente dita. Ou seja, uma leve preponderância. Neste caso, as informações do olho “menos dominante” podem influenciar os movimentos reativos das mãos e dos braços, resultando em uma falha na visada para o alvo. Em muitos casos, os problemas com a visada ocorrerão apenas em alvos que partem do lado oposto ao olho de visada (também chamado de olho de tiro).

Para complicar, a intensidade da dominância ocular pode variar em função da luminosidade, com o avançar da idade ou, até mesmo, deixar de existir.

Quando o problema passa a ser maior?

Para as pessoas que são destras e o olho dominante é o esquerdo, significa que existe uma dominância ocular cruzada. Pois ao empunhar a arma para fazer a visada com os dois olhos abertos, o atirador verá uma imagem dupla da ponta do cano. E vice-versa para o canhoto. Lembrando que para aqueles que não tem dominância ocular intensa – deslocamento ocular central-, também poderão ver uma imagem duplicada do cano ou da massa de mira. Estas situações podem prejudicar significativamente a exatidão do tiro, principalmente em alvos em movimento, como é o caso do tiro ao prato ou hélice.

Como identificar a dominância ocular?

Existem vários testes que mostram a dominância de um ou de outro olho. Vejamos os testes:

 Teste 1. O atirador estende ambos os braços e com as duas mãos forma uma abertura na forma de um orifício. Com os dois olhos abertos mira um objeto distante (mais que 3,0 m) por meio do orifício. Mantendo a visão para o objeto fecha, alternadamente um olho de cada vez. Aquele olho, quando aberto, que manteve a imagem do objeto no orifício será o dominante.

Teste 2. Com um braço estendido, o atirador fecha a mão, levanta o polegar e com os dois olhos abertos alinha este dedo com um objeto distante. Alternadamente fecha um olho de cada vez,  aquele olho, quando aberto, que manter o objeto alinhado com o dedo será o dominante.

Uma vez identificado o olho dominante e se a dominância for cruzada, pode existir, conforme comentado anteriormente, uma dificuldade a mais. Esta dificuldade se manifesta em diferentes intensidades, o que os testes acima não determinam. Para algumas pessoas, a dominância não é tão forte e o fechamento parcial do olho dominante pode evitar a formação de imagem dupla. No entanto, o fechamento parcial do olho tem desvantagens.

Para se estimar a intensidade de dominância de um olho existe um teste que requer uma pessoa treinada para sua execução. Neste caso, recomenda-se a procura de um técnico que tenha um bom conhecimento do assunto, ou um oftalmologista.

Como estimar a intensidade de dominância ocular?

O atirador fica com os dois olhos abertos a uma distância de dois metros do examinador. O atirador aponta rapidamente para o olho dominante do examinador, o que deve ser repetido algumas vezes para uma leitura média. O examinador irá determinar a posição do dedo do atirador em relação ao seu olho, de maneira a avaliar a intensidade do efeito de olho dominante. Ou seja, o examinador determinará a posição do dedo do atirador em relação ao olho dele de maneira a avaliar a intensidade do efeito do olho que não é de tiro (off eye) quando faz o movimento do braço como se estivesse encaixando a espingarda no ombro para realizar a visada. As Figuras a seguir mostram a visão do examinador enquanto realiza o teste para diferentes intensidades de dominância ocular.

dominância ocular direita
100% de dominância do olho direito e deslocamento ocular central com interferência do olho direito.
dominância ocular central-esquerda
Dominância ocular central e deslocamento ocular central com interferência do olho esquerdo.
Dominância ocular esquerda
Dominância ocular esquerda.

Para confirmar este resultado sugiro que o teste seja repetido com o atirador realizando o movimento encaixando a espingarda em seu ombro para a visada. Lembrando que a arma deve estar descarregada para a realização do teste. Para tanto, o atirador deverá apontar a arma  para o dedo do atirador, que deve estar na frente olho dominante dele, e mover o dedo em direção ao olho não dominante do atirador e retornar o dedo à posição inicial. Desta forma, o examinador poderá verificar se o olho não dominante influência a posição da arma.

Instrutores de tiro experientes que oferecem clínicas de tiro geralmente tem capacidade de identificar corretamente a dominância ocular cruzada. Veja a importância das clínica de tiro por meio da matéria publicada no site da revista pedana:

https://revistapedana.com/a-importancia-da-clinicas-de-tiro-esportivo/

Um exemplo que ilustra a possibilidade do olho que não é de tiro atrapalhar a imagem gerada pelo olho de tiro é quando se lança um prato perpendicular à posição do atirador – chamado prato reto – e o atirador erra. Um atirador destro que possui o olho esquerdo dominante, teoricamente erraria atirando a esquerda do prato e vice-versa. Muitas vezes ouvi de atletas frases como: tenho dificuldade com pratos retos ou não acredito que errei um prato reto?

Como mitigar o efeito da dominância ocular no tiro ao voo?

Fundamentalmente o que não é recomendado como solução é o atirador encaixar a espingarda de maneira inapropriada para tentar corrigir o problema. Ou seja, deitar a cabeça sobre a coronha (naselo) para realizar a visada com o olho dominante, conforme demonstrado na imagem abaixo.

Dominância ocular
Deitar a cabeça sobre a coronha para realizar a visada com o olho dominante não é a maneira correta de mitigar o problema de dominância ocular cruzada no tiro esportivo.

Felizmente existem alternativas que para mitigar ou mesmo descartar o efeito da dominância ocular.

Alternativa 1: a primeira alternativa é o atleta com dominância cruzada “aprender” a atirar com a arma encaixada conforme o lado de seu olho dominante. Por exemplo, se o atirador é destro e seu olho dominante é  o esquerdo, passar a atira encaixando a arma no ombro esquerdo. Isto requer paciência, força-de-vontade e muito treino. Trata-se de uma alternativa que resolve definitivamente o problema para quem almeja atirar com os dois olhos abertos, conforme se recomenda para alvos em movimento.

Alternativa 2: para algumas pessoas o simples ato de comprimir e fechar parcialmente o olho dominante (dominância cruzada) ou o olho não dominante (deslocamento ocular central) pode resolver o problema de dupla imagem. Conforme comentado anteriormente, ao se reduzir a luminosidade pelo fechamento parcial do olho a dominância de um olho sobre o outro é minimizada. Esta técnica requer muito treino e pode ser perigosa, pois trata-se de um procedimento a mais a ser processado pelo cérebro do atirador e nem sempre se consegue manter este fechamento parcial no momento do disparo.

Alternativa 3. Uso de um pequeno adesivo ou um pedaço de esparadrapo transparente que bloquei ou reduza a luminosidade sobre o olho dominante (no caso de dominância cruzada). O adesivo é colocado de maneira a cobrir totalmente a íris do olho quando o atirador estiver com a espingarda encaixada na posição correta para a visada. Particularmente prefiro o uso do esparadrapo transparente, pois a visão não é totalmente bloqueada e assim, a visão periférica ainda se mantem.

Dominância ocular
Para mitigar o efeito de dominância ocular cruzada em um atirador destro, o uso de um pequeno adesivo cobrindo a íris do olho esquerdo dominante permite a correta visada com o olho direito não dominante.

Alternativa 4: fechar o olho não dominante no momento do disparo pode ser uma solução para alguns atiradores. Porém, não resolve para todas as situações. Apesar de ser uma alternativa de fácil solução do problema, ela cria a dificuldade adicional de perda de percepção de profundidade e de visão periférica, o que pode comprometer o correto enquadramento de desconto lateral (lead) em pratos com movimentos transversais à posição do atleta,  como ocorre nas diversas modalidades de tiro ao prato e tiro em hélice (FAN-32).

Enfim, a questão de olho dominante pode ser um problema real para alguns atiradores ou simplesmente uma pequena dificuldade que pode ser resolvida. As alternativas de mitigação existem e a escolha de uma ou outra deve-se basear em termos conforto e eficiência. A dificuldade maior é quando o atleta possui pequenas variações na predominância ocular e não a identifica corretamente. Esta situação pode resultar em alguns “zero” (miss) que poderiam ser evitados. Portanto, sempre é recomendável fazer os testes com o auxílio de um técnico especializado no assunto.