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Importância das rotinas na consistência de uma boa performance no Trap Americano e no Tiro ao Prato Olímpico

  • julho 13, 2026
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Por Luiz Eduardo Dias Quer seja em um treinamento ou na participação em uma prova tiro ao prato esportivo o atleta deve se preparar e seguir certas rotinas

Importância das rotinas na consistência de uma boa performance no Trap Americano e no Tiro ao Prato Olímpico

Por Luiz Eduardo Dias

Quer seja em um treinamento ou na participação em uma prova tiro ao prato esportivo o atleta deve se preparar e seguir certas rotinas que permitirão a manutenção de sua técnica, a confiança e o foco necessários para a conquista de bons resultados. Neste artigo discuto sobre as rotinas que o atleta deve executar durante uma prova de tiro ao prato.

1. Os momentos e rotinas de um atleta de tiro ao prato em competições

A participação de um atleta em uma prova de tiro ao prato envolve diferentes etapas de preparo técnico, físico e mental. Ou sejam:

A. Treinamentos antes da prova: os clubes permitem que dias antes das provas os atletas possam realizar treinamentos com o objetivo de reconhecimento das características das pedanas onde ocorrerão as disputas. Trata-se de uma fase fundamental de ambientação, que permite reduzir a possibilidade de ocorrência de situações que possam tirar o foco do atleta e cause estresse. Para evitar a ocorrência de estresses decorrentes do ambiente, é fundamental realizar estes treinamentos em diferentes horários do dia e utilizando todas as pedanas disponíveis;

B. Preparo mental para a prova: ao realizar os treinamentos que antecedem as provas, o atleta tem a possibilidade de preparar a sua mente no sentido de trazer segurança e confiança para a disputa que se antecede. Importante lembrar que o aspecto mais importante que pode gerar ansiedade negativa é estabelecer metas além de uma realidade vivida pelo atleta. Se em treinos e competições o atleta obtém resultados médios entorno de um determinado escore, não se deve estabelecer metas significativamente muito maiores que este escore, pois uma vez não atingidas, geram frustações e perda de foco.

Obviamente que querer resultados melhores é fundamental para o sucesso de qualquer atleta, mas para o atleta que está em evolução este processo de metas irreais pode gerar ansiedade e frustrações que são muito perigosas. Sim, perigosas porque este processo pode se tornar um ciclo autoalimentado e determinante para a estagnação de resultados. Outro aspecto igualmente importante é que o estabelecimento de metas irreais podem dificultar o atleta entrar em estado de “flow” durante a prova.

O estado de “flow” é caracterizado por uma imersão total na atividade, onde o atirador experimenta alto grau de foco, envolvimento e satisfação. Para alcançar esse estado, é crucial manter o foco absoluto no presente, perder a autoconsciência e ter clareza nos objetivos. Técnicas como respiração consciente, meditação e visualização mental podem treinar o cérebro a se manter ancorado no momento presente, facilitando a entrada no estado de flow.

Portanto, o preparo mental para os momentos que antecedem uma prova deve envolver técnicas de respiração para baixar a ansiedade, visualizações da rotina a ser estabelecida dentro da pedana e de acertos dos pratos. O atleta deve manter pensamentos que tragam a sensação de bem-estar e a lembrança de momentos felizes e de conquistas. Alguns atletas utilizam o recurso de escutar músicas que auxiliam a manutenção de destes pensamentos.

As rotinas durante a prova
As rotinas durante a prova são fundamentais para manter o foco e o equilíbrio necessário entre o consciente e o inconsciente

O importante é que se estabeleça uma rotina para este preparo mental. Uma vez adotada em todas as provas, ela aumentará a sensação de segurança, confiança, determinação e bem-estar, diminuindo a ansiedade negativa e funcionado como um gatilho mental que aumenta a possibilidade de sucesso.

Da mesma forma, é comum que atletas permaneçam atrás da pedana prestando a atenção nas trajetórias dos pratos e mentalizem a sua quebra, como uma forma de ambientação e desenvolvimento de uma memória positiva e eficaz.

C. Rotinas durante a prova

As quatro rotinas durante a prova são:

– Pré-disparo;

– Disparo;

– Pós-disparo;

– Espera.

As rotinas são essenciais para o sucesso no tiro esportivo, influenciando diretamente a consistência dos disparos. Uma rotina bem estruturada não apenas aprimora a técnica, mas também fortalece o controle mental – notadamente a manutenção do estado de flow – e o condicionamento físico do atirador.

O condicionamento mental envolve o equilíbrio entre o consciente e o inconsciente, pois durante a prova existem momentos que o consciente deve atuar no sentido de análise do ambiente e correções de procedimentos (pós-disparo). Contrapondo estes momentos, o inconsciente é fundamental nas fases pré-disparo e disparo. Em 2021 publiquei um artigo onde comentei sobre as rotinas da prova. Neste artigo, o objetivo é aprofundar um pouco mais sobre estas rotinas.

2. Rotina pré-disparo

Importante não esquecer que a mente é a aliada decisiva na preparação pré-disparo. O treinamento mental inclui exercícios de concentração e visualização, que simulam o ato do disparo com todos os seus detalhes, reforçando o foco e a autoconfiança. Psicólogos do esporte recomendam o uso da meditação mindfulness para fortalecer a atenção plena, mantendo o atirador centrado no presente e evitando distrações.

A rotina pré-disparo tem início no exato momento que o atleta antecessor termina seu disparo. Neste momento, o inconsciente deve preponderar até que o disparo tenha ocorrido. O que acontece neste período?

Após o atleta antecessor ter realizado seu disparo, o atleta seguinte recebe a mensagem de seu consciente de que é a sua vez de chamar o prato e realizar o disparo. Após esta mensagem, de maneira consciente, o atleta realiza o movimento de encaixar a arma. Trata-se de um movimento natural, treinado exaustivamente e que deve ser o mais simples e natural possível. Seus olhos já estão direcionados para a região de saída do prato a fim de estabilizar o foco visual.

Um aspecto importante nesta fase é o posicionamento correto dos pés e o controle da respiração. Uma técnica usual é conciliar o movimento de encaixe da espingarda com uma respiração profunda que traz a sensação de alívio da ansiedade, retirando as tensões do ombro, do pescoço e dos braços. Lembre-se, apertar a arma com excesso de força, faz com que os braços e mãos se enrijeçam e o movimento de girar o tronco fique prejudicado.

Uma vez a arma encaixada e o campo visual definido no ponto de saída ou de interceptação da trajetória do prato (hold point) tem início um procedimento de preparo, que é fundamental, para a fase seguinte que refere-se ao disparo. A diferença entre ponto de saída ou de interceptação da trajetória do prato tem relação direta com as técnicas de modo e tempo, descritas de maneira clara e objetiva por Carlo Danna em seu livro “Tiro ao Prato. Um esporte. Uma escola de vida. Uma terapia”.

A partir deste momento, o atleta deixa de repetir seu mantra para evitar que pensamentos prejudiciais apareçam e o inconsciente passa a reinar. O olhar atento para a região de saída ou de interceptação da trajetória do prato envolve a técnica conhecida com Quiete Eye, ou a partir de traduções livres, olhar fixo, olhar tranquilo e olhar silencioso.

Trata-se de uma técnica muito estudada e difundida em outros esportes como por exemplo o basquete e o golfe. No tiro esportivo existem estudos mostrando sua importância no tiro de precisão, mas no caso de tiro instintivo, como o tiro ao prato, os estudos ainda são escassos.

Na realidade a técnica refere-se aquele momento de frações de segundo em que o atleta realiza a fixação visual

O Quiet Eye é a última fixação visual que o atirador faz no alvo ou na zona de interceptação antes de iniciar o movimento da arma. Cientificamente, esse momento de quietude ocular estabiliza as redes motoras do cérebro, organizando a coordenação entre as mãos e os olhos. Não se trata apenas de olhar, mas de permitir que o cérebro processe a trajetória e a velocidade do prato com precisão milimétrica. Esta fixação visual deve ser rápida. Entre o início da fixação visual e o início da fase seguinte de disparo, o período não deve exceder três segundos. Caso contrário, passa a existir a possibilidade de pensamentos prejudiciais surgirem. Lembre-se que neste momento o importante é fixação do olhar e a manutenção da mente limpa.

3. Rotina de Disparo

A rotina de disparo refere-se aos poucos segundos envolvem a chamada do prato, a visualização de sua trajetória, o movimento dos braços e do tronco no sentido desta trajetória, a visualização do prato e o disparo em si. Esta sequência é realizada de maneira suave, progressiva e de forma inconsciente. De maneira instintiva.

Nesta fase o controle da respiração desempenha papel crucial. Uma sugestão: respirar profundamente, soltar o ar de maneira suave ajudam a estabilizar o corpo e a visão. Com os pulmões vazios é hora de chamar o prato.

Um aspecto que deve ser ressaltado refere-se a como chamar o prato. O importante que este chamado seja natural e que não exista movimentação significativa do maxilar a ponto de desestabizar o encaixe da bochecha no naselo ou coronha. Da mesma forma, o volume e duração do chamado devem ser adequados para cada atleta e considerando-se a sensibilidade média dos phonopuls. Alguns atletas chamam o prato com voz alta e forte determinação, de forma a trazer certa agressividade e decisão ao disparo. Outros preferem fazê-lo de maneira mais suave e rápida, a fim de manter o foco e a tranquilidade na hora do disparo.

Na realidade, o atleta deve utilizar a abordagem na qual se sente mais à vontade e que permita mantê-lo focado e pronto para uma ação instintiva. 

Conforme comentado, o subconsciente assume o controle nesta etapa. O corpo reage à velocidade e a trajetória do alvo com a memória muscular construída nos treinos, realizando o disparo de forma reflexa.

Muitas vezes, ao fazermos o movimento de forma instintiva, suave e progressiva no sentido da trajetória do prato, nosso consciente se questiona: como consegui acertar este prato, se praticamente não o vi no momento do disparo? Quando o céu está nublado é comum que pratos altos e angulados (Fossa Olímpica) entrem em um céu branco onde praticamente não se vê o prato, de maneira clara e definida, no momento do disparo, no entanto, como que de maneira automática e inconsciente, o prato é pulverizado. Este é o disparo ideal. Por isso o processo deve ser inconsciente. Querer enxergar nitidamente o prato para buscar o enquadramento perfeito é um caminho que, quase sempre, nos leva ao erro.

4. Rotina pós-disparo

Acertando ou não o alvo é muito importante manter uma rotina que, de maneira consciente, traga tranquilidade, confiança e determinação para prosseguir na série de disparos.

Uma das vantagens do tiro ao voo esportivo é que imediatamente após o disparo, o atleta recebe o feedback a respeito de sua performance. A questão principal neste momento é como reagir a este feedback? A indiferença total talvez não seja a mais adequada, assim como colocar uma importância exagerada ao resultado obtido também não seria. Então? Como proceder?

Primeiramente é fundamental ter em mente que cada disparo é um evento independente, único e, uma vez realizado, virou passado. Ao receber o feedback de sucesso ou não, o atleta, de maneira consciente faz uma rápida análise: segui minhas rotinas de maneira adequada? Consegui realizar uma boa leitura da trajetória do prato? A movimentação dos braços, ombros e quadris foi suave e progressiva (a técnica foi utilizada de maneira adequada)? Se as respostas a estas perguntas for “sim” e o prato não foi quebrado, certamente um fator externo, como o vento por exemplo, causou um desvio do alvo no momento do disparo. Ou seja, não houve erro por parte do atleta. Isto pode acontecer, até com certa frequência.

Por outro lado, se para alguma daquelas perguntas a resposta for “não”, uma breve reflexão deve ser realizada a fim de que o erro não seja mais repetido e as rotinas deveram ser realizadas de maneira correta, uma vez que – como dissemos anteriormente – “cada prato lançado é um evento independente, único e, uma vez realizado, virou passado”.

Já tive a oportunidade de enfrentar uma situação na pedana que, de certa forma, é comum de acontecer. Iniciei a série de disparos de maneira tranquila e, como se diz, “moendo os pratos no primeiro disparo. Por volta do décimo quinto prato, por um erro da minha parte, uma vez que estava muito tranquilo, parei de repetir o mantra e, rapidamente veio o pensamento: hoje está ótimo, tudo acontecendo de maneira perfeita. É hoje que sai um 25! Pronto! A série foi por água abaixo!

O excesso de confiança pode fazer com que o nível de atenção e foco caiam a ponto de as rotinas não serem cumpridas corretamente, dando a oportunidade para o surgimento de erros. Por isso, a manutenção da rotina pós-disparo de maneira eficaz e determinada, não deixando espaço para que o consciente haja de maneira prejudicial, é de grande importância.

Quando o atleta consegue entrar no estado de flow ele permanece totalmente absorvido pela atividade, estabelece um equilíbrio perfeito entre desafio (meta estipulada) e habilidade, eliminando pensamentos ansiosos e facilitando a execução ideal do gesto de disparo. Por que o estado de flow impossibilita a entrada de pensamentos inadequados para o momento? Simplesmente porque o nível de atenção e foco estabelecido – auxiliados pela manutenção do mantra – são elevados a ponto de não permitir que o consciente atue de maneira prejudicial.

5. Rotina de espera

A rotina der espera refere-se ao intervalo que existe entre o término da rotina de disparo e o início de uma nova rotina de pré-disparo. No Trap americano, até completar cinco disparos, o atleta permanece no mesmo posto, ao contrário da Fossa Olímpica que o atleta se move para o próximo posto após cada disparo. No Skeet, existem postos onde o atleta executa apenas dois disparos e outros onde executa quatro disparos antes de se mover para o próximo posto. Nas provas de Percurso de Caça, Sporting Clays e Compak existem sequências de disparos e movimentações entre postos de tiro específicas que podem variar entre as provas.

Neste período de tempo de espera entre os disparos é onde o atleta enfrenta uma verdadeira batalha entre o consciente e o inconsciente a fim de não permitir que pensamentos críticos e negativos venham a mente e promovam a perda de foco e a quebra do estado de flow.

A rotina de espera
A rotina de espera é onde o atleta enfrenta uma verdadeira batalha entre o consciente e o inconsciente

Não há dúvidas de que a doção de uma rotina de palavras ou frases na forma de um mantra é a maneira mais fácil de manter o consciente afastado durante o período de espera. Alguns utilizam palavras que motivam, outros que acalmam ou a mistura dessas, tais como: “eu sei como fazer e vou fazer”, “manter o foco e a atenção”, “esperar o prato sair e movimentar de maneira suave e progressiva” etc.

Outras maneiras de manter o consciente afastado é mentalmente cantarolar uma canção ou executar as rotinas de pré-disparo, disparo – com a imagem do prato quebrando – e pós-disparo.

Estas práticas ajudam demasiadamente a manutenção do estado flow e evitam que questões externas interrompam suas rotinas e prejudiquem sua performance.

Apesar de ser uma questão básica, é importante repetir que a contagem de pratos perdidos é o pior que pode acontecer com o atleta durante a prova. Por isso a rotina de espera, assim como as demais, é fundamental para evitar que o atleta caia neste erro e mantenha sempre em mente que cada disparo é único e independente, de maneira que uma vez executado, virou passado e ficar pensando no erro é um atalho para o insucesso. Sempre pensar positivamente nas oportunidades que ainda existam para que o que tem que ser feito seja feito da melhor maneira possível.

6. Concluindo

O resultado final de uma prova é consequência direta da preparação técnica, física e mental do atleta. Para isso é necessário que existam as rotinas de treinamento, as que antecedem uma prova e as rotinas de prova. A correta execução dessas, traz segurança, confiança e facilitam a manutenção do foco durante as provas.

Para que se alcance o nível desejado de preparo técnico, físico e mental é fundamental que se crie a rotina de treinamentos, uma vez que não fácil manter a serenidade, foco, confiança e determinação durante uma prova. Orientação técnica, dedicação e força de vontade são diferencias que formam a base de atletas de alto desempenho.