Caxias do Sul, uma cidade surpreendente que é referência no tiro ao voo

Como o maior e mais importante município da Serra Gaúcha, Caxias do Sul guarda importante legado histórico, conserva belos patrimônios arquitetônicos e, além da Festa Nacional da Uva, revela os mais interessantes atrativos turísticos.

Caxias do Sul é a mais importante cidade da Serra Gaúcha, uma região que guarda extraordinárias belezas naturais, muito em razão da topografia acidentada que forma vários vales repletos de cursos d’água. O hoje mais importante município do interior do Rio Grande do Sul, além de ser o segundo mais populoso do estado gaúcho, atrás apenas da capital Porto Alegre, começou a sua história como Campo dos Bugres — como o então povoado foi conhecido até o ano 1877. O nome era uma alusão aos “bugreiros”, os primeiros desbravadores, que tomaram as terras aniquilando os índios caigangues, que habitavam há tempos aquelas paragens no entorno da Serra Gaúcha.

A belíssima Catedral de Santa Teresa D’Ávila: estilo arquitetônico neogótico.

No final do século XIX, já conhecido como Colônia de Caxias (de 1877 até 1884), nome em homenagem ao Duque de Caxias, e depois como Santa Teresa de Caxias (de 1884 até 1890), o lugar tornou-se uma prioridade na política de colonização para o governo Imperial — que então decidiu abrir todos os espaços para os imigrantes europeus. Imediatamente aconteceu o fenômeno da grande imigração, sobretudo dos italianos oriundos da região do Vêneto, Todavia,  também vieram estrangeiros de outras origens como alemães, polacos, franceses e espanhóis.  

Três naves formam o espetacular interior da Catedral de Santa Teresa D’Ávila.

75 anos da imigração italiana

Logo surgiu uma economia essencialmente agrária com o cultivo de milho, trigo, feijão. cevada, centeio e batata inglesa. O destaque, porém, veio com o cultivo da uva e a produção de vinho. O sinais de desenvolvimento econômico refletiram na sede urbana da colônia com o crescimento do comércio de “secos e molhados” e em atividades especializadas como as marcenarias, selarias, funilarias, ferrarias e olarias, além dos sapateiros, alfaiates e carpinteiros. Essas atividades levaram à realização, em 1881, da primeira Feira Agro-Industrial — origem da famosa Festa da Uva, um grande atrativo turístico de Caxias do Sul.

Detalhe do magnífico altar-mor da Catedral.

O município efetivamente surgiu em junho de 1890 com os italianos assumindo de fato os postos de comando. Após enfrentar inúmeros percalços em função dos tristes acontecimentos decorrentes da Segunda Grande Guerra Mundial —  houve um profundo rompimento dos laços entre Brasil e Itália, com reflexos contundentes para os descendentes dos italianos — os caxienses fizeram a cidade florescer em desenvolvimento a partir da década de 1950. O símbolo maior foi justamente a retomada, nesse mesmo ano, da Festa da Uva, interrompida em 1938 por causa da guerra. Também se comemorava os 75 anos da imigração italiana, quando os imigrantes passaram a ser chamados de pioneiros, em um justo reconhecimento que teve importante significado para todos os nativos da cidade. Tanto que em 1954, ergueu-se o Monumento ao Imigrante, logo reconhecido como um monumento nacional — atualmente é mais uma  atração para os visitantes.

O Palácio Episcopal, que faz um harmonioso conjunto arquitetônico com a Catedral.

Patrimônios históricos, culturais e arquitetônicos

O crescimento do município devido à expansão da economia refletiu no núcleo urbano: na área central, no início do século XX, foram erguidas construções imponentes como edifícios, palacetes e sobrados com belos projetos arquitetônicos e decorações sofisticadas. Da mesma forma, surgiram artistas como pintores, decoradores, santeiros e até fotógrafos. Eles passaram a produzir expressões refinadas de arte e de cultura, colaborando decisivamente para que Caxias ganhasse ares cosmopolitas.   

Esse legado está expresso em patrimônios históricos, culturais e arquitetônicos representados pela belíssima Catedral de Santa Teresa D’Ávila e o Palácio Episcopal, além do Clube Juvenil e do Cine Teatro Central.

A Catedral merece uma visita obrigatória tamanha é a importância (e a beleza) dela. Com a construção iniciada a partir do ano de 1895, o projeto arquitetônico, em estilo neogótico, foi inspirado na Basílica de Santo Antônio, de Bologna, Itália. Os destaques da fachada são as três portas sustentadas por grandes pilastras, sendo que a porta central é maior. Esse conjunto forma o frontão, decorado por uma grande rosácea, que fica exatamente acima da porta maior. Três naves formam o interior da igreja: logo na entrada há um coro e nas laterais estão as capelas neogóticas. Uma série de belos vitrais fabricados na Alemanha decoram as laterais das naves. A capela-mor está ao fundo da nave central, com o altar-mor e o trono episcopal. O altar tem ricos entalhes, assinados pelo local Francisco Meneguzzo. Além da sacristia, que fica no lado esquerdo, destaca-se à direita a Capela do Santíssimo Sacramento, que abriga imagens de Cristo (de autor desconhecido) e de Santa Teresa, essa de autoria do imigrante italiano Pietro Stangherlin, que deixou um grande acervo de arte produzida por ele em Caxias do Sul. Inclusive, leva a assinatura dele mais três imagens que estão nos altares laterais: Nossa Senhora da Glória, São Francisco e Santo Anselmo. Um importante santeiro local,  Estácio Zambelli, deixou obras como crucifixo de grandes dimensões e a imagem “Maria Bambina”, a Santa Inês.

O belo chafariz da praça.

Catedral e praça

A Catedral de Caxias do Sul foi dedicada a Santa Teresa pelos imigrantes italianos como agradecimento à Dona Teresa Cristina, esposa de Dom Pedro II. Ao lado dela, a Casa Canônica completa o conjunto arquitetônico. Também conhecido como Palácio Episcopal, é uma elegante construção em estilo eclético, inaugurada em 1918. Trata-se de um dos mais importantes patrimônios arquitetônicos da cidade, casa que guarda a memória das estruturas residenciais de Caxias do Sul a partir do final do século XIX.

O impactante Monumento à Liberdade.

A Catedral de Santa Teresa D’Ávila é o marco principal do grande espaço público de Caxias do Sul: a Praça Dante Alighieri. A origem da grande praça remonta ao ano de 1882 quando uma estruturação urbana ao redor do espaço delimitado para a sua construção começou a dar forma ao centro histórico caxiense, com o surgimento de hotéis, casas comerciais e clubes. O local passou a ser um ponto de encontro, pois abrigava quiosques que ofereciam alimentos e bebidas, além de receber circos e outras manifestações culturais.

Aspecto geral dos edifícios do centro da cidade.

Pouco tempo depois, o espaço foi ajardinado, ganhou bancos e o entorno recebeu calçamento. Um coreto para discursos e apresentações de espetáculos musicais foi construído assim como dois monumentos: um em homenagem a Julio de Castilhos, assinado pelo artista Prosperi e o outro a Dante Alighieri, do artista italiano Eugenio Bellotto.  

O Chalé Municipal, uma réplica em alvenaria dos tradicionais quiosques de madeira, com um bar, restaurante e salas de jogos, surgiu em 1917. No centenário independência brasileira, em 1922, foi inaugurado um monumento à Liberdade  com uma estátua assinada por Michelangelo Zambelli. No ano de 1933, lança-se a pedra fundamental para a construção do monumento em homenagem ao Duque de Caxias, que fica em frente à Catedral. Em 1940, um novo ajardinamento com muitas roseiras, a construção de um chafariz e o calçamento das alamedas decorado com um mosaico de pedras, embelezaram ainda mais a praça — que, em muitos aspectos,  assim permanece até os dias de hoje.  

Potencial turístico

Segundo informam as fontes da Prefeitura Municipal de Caxias do Sul por meio do sítio oficial, o turismo no município foi relativamente pouco explorado, mas nos últimos tempos ocorre um visível crescimento do setor. Existem, por exemplo, roteiros já consolidados como como La CittàCaminhos da ColôniaEstrada do Imigrante e Ana Rech, onde o visitante conhece a história da cidade e dos imigrantes enquanto tem a oportunidade de saborear pratos tradicionais e apreciar paisagens características.

Caxias do Sul apresenta diferentes estilos na arquitetura.

Interessantes regiões com potencial turístico, ainda segundo o site oficial, dentre elas os distritos rurais de Fazenda Souza, Santa Lúcia do Piaí, Vila Cristina, Vila Oliva e Vila Seca, comprovaram  potencialidades para o turismo que nem mesmo a população local conhecia.

Outras das atrações mais conhecidas de Caxias do Sul, como enumera a prefeitura, são a Igreja de São Pelegrino, cujo acervo artístico reúne importante série de pinturas de Álvaro Locatelli e notáveis portas em bronze lavradas por Augusto Murer; o Monumento Nacional ao Imigrante, obra de Antonio Caringi, o Museu Ambiência Casa de Pedra e o Museu Municipal.

Gastronomia

A gastronomia típica é outro tema que ganha destaque nas informações divulgadas pela Prefeitura Municipal. “A cidade é conhecida pela fartura e qualidade de sua cozinha, servida em cerca de 300 restaurantes e mais cerca de 600 outros estabelecimentos. Vários são especializados na culinária tradicional, há diversos dedicados a baurus e filés, e em anos recentes outros têm variado seus cardápios, se abrindo para a cozinha internacional, incluindo de regiões do oriente, especialmente japonesa e chinesa. Também há um bom número de churrascarias”.

Detalhe do frontão da Catedral de Santa Teresa D’ávila.

Todavia, os grandes atrativos gastronômicos estão relacionados à mesa com pratos típicos italianos. A base da cozinha folclórica italiana é o galeto  assado (galeto al primo canto), a polenta mole ou frita,  e massas como os bigoli (macarrão) e os tortei (trouxinhas de massa embutidas) com purê de abóbora temperado comnoz moscada, mas outros pratos também são populares, como a sopa deagnolini(trouxinhas de massa recheada de carne de galinha), a salada de radicci com pancetta (variedade dealmeirão com folhas estreitas e sabor amargo temperado com toucinho frito), a canjica de milho, o crem (tipo de raiz forte ralada conservada emvinagre tinto e usada como tempero de carnes), pães e biscoitos caseiros, a canja de galinha, o risoto. Há ainda os salames, a fortaia (omelete com queijo ou salame), e queijos, além de compotas e doces, com destaque para a uvada. E, é claro, as muitas variedades de vinho. 

Festa Nacional da Uva

Em tempo: a Festa Nacional da Uva é um grande evento que acontece a cada dois anos em Caxias do Sul, que  comemora a história, a cultura e a produção agroindustrial da cidade e da região. A tradicional festa é um grande legado da colonização italiana uma vez que no início do povoamento da Serra Gaúcha, a produção de uva e a indústria e comércio do vinho foram as principais atividades que alavancaram a economia local, e assim seguiu por décadas. “As necessidades específicas do cultivo da uva e preparação do vinho determinavam toda a rotina e o ritmo do trabalho do agricultor e muitas vezes exigiam a colaboração de vizinhos e empregados contratados”, como informam as fontes oficiais da prefeitura. Além do mais, prossegue a informação oficial, “a preparação para esta época  coincidia com o período de armazenamento de vários outros produtos básicos da época como o queijo, o salame e compotas de outras frutas que amadureciam na mesma estação”.

A praça e o conjunto urbano do centro sob outra perspectiva.

Atualmente, a Festa da Uva e Feira Agroindustrial é organizada pela Comissão Comunitária, organizada em uma Presidência, indicada pela Prefeitura, um Conselho Fiscal e Vice-Diretorias, que escolhem coordenadores de setor, e estes, seus auxiliares. O papel da Comissão é montar todo o evento, desde seus preparativos, divulgação, administração e execução até sua conclusão, envolvendo entidades, instituições, empresas, patrocinadores, pesquisadores, autoridades e comunidade.

A Comissão também escolhe  desde o tema musical para a festa até os trabalhos de supervisionar a recepção de turistas e providenciar acomodação em caso de esgotamento de vagas na rede hoteleira. Há ainda a tarefa de mobilizar as empresas, instituições e lojistas para que ornamentarem seus espaços e vitrines, além de providenciar a ornamentação da cidade com pórticos, bandeiras e outras decorações, distribuir uvas e brindes aos visitantes, organizar banquetes, solenidades e programações paralelas como shows, palestras, exposições, atividades gastronômicas, esportivas e recreativas, cuidar da segurança e organizar os vários desfiles de carros alegóricos pelas ruas da cidade. 

A mobilização de toda essa estrutura faz com que a Festa da Uva torne-se um grande atrativo turístico não só de Caxias do Sul como também do Rio Grande do Sul e do Brasil.

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